Relatório do Bradesco BBI estima que mais da metade dos postos fluminenses pode migrar para operadores formais nos próximos anos

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O Rio de Janeiro está se transformando em um dos principais casos de formalização do mercado de combustíveis no Brasil, segundo relatório do Bradesco BBI divulgado nesta semana. A combinação de reformas administrativas, endurecimento da fiscalização tributária e combate a fraudes vem reduzindo a participação de agentes informais no mercado fluminense.
O relatório foi escrito para investidores, com foco no ganho de participação de Vibra e Ultrapar. Mas o dado que ele traz interessa muito mais a quem opera posto do que a quem compra ação — porque descreve, com número, o que acontece quando a concorrência desleal encolhe.
Resumo
ToggleO tamanho do que está em jogo
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O efeito mais visível aparece na arrecadação. Segundo verificações de campo do banco, a arrecadação de tributos sobre combustíveis no estado cresceu mais de 40% no primeiro semestre de 2026 e avançou 77% no segundo trimestre na comparação anual.
Vale entender o que esse número significa. Arrecadação subindo 77% sem que o consumo tenha subido nessa proporção quer dizer uma coisa só: imposto que antes não era recolhido passou a ser. Não é mercado crescendo — é mercado saindo da sombra.
A projeção do banco é ainda mais expressiva. O BBI estima que mais da metade dos postos do Rio de Janeiro, o equivalente a mais de 1.000 unidades, poderá mudar de controle nos próximos anos, migrando para operadores formais. Isso representa cerca de 7,8 bilhões de litros de gasolina e outros 3 bilhões de litros de diesel, volume equivalente a aproximadamente 1,2% das vendas totais de combustíveis do Brasil.
Três medidas que podem acelerar o processo
O relatório aponta que a formalização ainda pode ganhar velocidade com três iniciativas em discussão no estado, e cada uma delas merece atenção de quem opera.
A primeira é a criação de legislação voltada aos devedores contumazes, empresas que fazem da inadimplência tributária parte do modelo de negócio. A segunda envolve a adoção de regras de solidariedade tributária, mecanismo que amplia a responsabilização de participantes da cadeia por impostos não recolhidos, seguindo modelo semelhante ao já utilizado em São Paulo. A terceira é a intensificação da fiscalização sobre postos e redes considerados irregulares ou com histórico de falhas na prestação de informações fiscais e contábeis.

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A segunda medida é a que exige mais cuidado do revendedor correto. Solidariedade tributária significa que a responsabilidade pelo imposto não recolhido pode alcançar outros elos da cadeia — e não apenas quem deixou de pagar. Na prática, isso torna a escolha do fornecedor uma decisão de risco fiscal, não só de preço. Comprar de quem oferece condição fora da curva deixa de ser oportunidade e passa a ser exposição.
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Há um precedente citado no relatório que vale mais que a projeção. Experiências semelhantes já foram observadas em São Paulo, e em conversas com distribuidores e revendedores o banco identificou casos de empresários que dobraram de tamanho após o endurecimento da fiscalização e a saída de concorrentes informais do mercado.
Isso responde a uma dúvida legítima de quem paga imposto e vê o vizinho vender mais barato: o volume que hoje está no mercado irregular não desaparece quando a irregularidade acaba. Ele se redistribui — e vai para quem permaneceu operando corretamente na mesma praça.
Quem estiver em praça sob esse tipo de aperto faria bem em se preparar para receber demanda adicional, não apenas para comemorar a saída do concorrente. Tancagem, escala de pista e capacidade de compra precisam suportar o cliente que vai migrar. Ganhar concorrência e não ter estrutura para absorver o volume é perder a oportunidade duas vezes.
Um modelo que pode se espalhar
Para o Bradesco BBI, os resultados obtidos pelo governo fluminense podem servir de modelo para outros estados que enfrentam problemas semelhantes de evasão fiscal no setor. O estudo aponta que a mudança ganhou força sob a gestão interina do governador Ricardo Couto, magistrado de carreira e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro — e avalia que a ausência de vinculação partidária permitiu avançar em medidas que administrações anteriores tiveram dificuldade para implementar.
Cabe uma ressalva de leitura. Trata-se de relatório de banco de investimento, escrito para embasar recomendação de compra de ações — o BBI vê espaço para revisões positivas nas estimativas de volumes e margens de Ultrapar e Vibra. É análise legítima e baseada em verificação de campo, mas parte de quem tem interesse na valorização dessas empresas. Os números de arrecadação são verificáveis; a projeção de mil postos mudando de controle é estimativa, não fato consumado.
Ainda assim, a direção do movimento é a mesma que se vê em outras frentes do setor: fiscalização de preços da ANP, revogação de autorização por irregularidade cadastral, distribuidoras expurgando bandeirados irregulares. O cerco à informalidade deixou de ser discurso de entidade e virou variável de mercado. A reportagem acompanha os desdobramentos e atualizará conforme novos fatos.
Perguntas e respostas
Quantos postos do Rio podem mudar de controle?
O Bradesco BBI estima que mais da metade dos postos do estado, o equivalente a mais de 1.000 unidades, poderá migrar para operadores formais nos próximos anos. Isso representa cerca de 7,8 bilhões de litros de gasolina e 3 bilhões de litros de diesel, ou aproximadamente 1,2% das vendas totais do Brasil.
Quanto cresceu a arrecadação de tributos sobre combustíveis no RJ?
Segundo verificações de campo do banco, a arrecadação cresceu mais de 40% no primeiro semestre de 2026 e avançou 77% no segundo trimestre na comparação anual. O salto é atribuído ao endurecimento da fiscalização tributária e ao combate a fraudes, não ao crescimento do consumo.
O que é solidariedade tributária e por que afeta o posto?
É o mecanismo que amplia a responsabilização de participantes da cadeia por impostos não recolhidos, em modelo semelhante ao já usado em São Paulo. Na prática, torna a escolha do fornecedor uma decisão de risco fiscal: comprar de quem oferece condição fora da curva deixa de ser oportunidade e passa a ser exposição.
O que aconteceu com os postos regulares em São Paulo?
O relatório aponta que, em conversas com distribuidores e revendedores, o banco identificou casos de empresários que dobraram de tamanho após o endurecimento da fiscalização e a saída de concorrentes informais. O volume do mercado irregular tende a se redistribuir entre quem permaneceu operando corretamente.
Quais medidas ainda podem acelerar a formalização?
São três, segundo o relatório: legislação voltada aos devedores contumazes, adoção de regras de solidariedade tributária e intensificação da fiscalização sobre postos e redes irregulares ou com histórico de falhas na prestação de informações fiscais e contábeis.

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