Senacon, Procons e ANP abriram 70 processos contra postos e estão nas ruas. O alvo não é o preço na bomba, é a margem — comparada com a de antes de fevereiro
A Secretaria Nacional do Consumidor lançou nesta semana a Operação Carga Pesada, uma mobilização nacional para apurar possíveis aumentos abusivos nas margens de lucro de postos de combustíveis. A ação começou na terça-feira (22), com uma reunião emergencial que reuniu mais de 100 representantes de Procons estaduais e municipais, e foi anunciada na quarta (23).
O gatilho foram cerca de 330 denúncias de aumentos indevidos recebidas pela ANP até o dia 18. Com base em autos de fiscalização encaminhados pela agência, a Senacon já instaurou 70 processos administrativos contra postos. Cada estabelecimento tem 20 dias para apresentar defesa.

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A operação é conduzida pela Senacon e pelos Procons, em articulação com a ANP, e conta com apoio da Secretaria Nacional de Segurança Pública e da Força Nacional. O foco inicial é o diesel S-10 e a gasolina comum.
Resumo
ToggleNão é o preço. É a margem
Este é o ponto que o revendedor precisa entender antes de qualquer outro. O secretário nacional do Consumidor, Ricardo Morishita, deixou claro que o órgão não multa preço na bomba nem aumento de preço em si. O que é punido, com base no artigo 39, inciso X, do Código de Defesa do Consumidor, é o aumento da margem de lucro sem justificativa.
A Senacon também informou que não existe um preço específico a partir do qual a gasolina passa a ser considerada abusiva. Ou seja: um posto com a gasolina mais cara da cidade pode estar regular, e um posto com preço mediano pode estar em infração. O que decide é quanto a margem subiu e se existe custo que justifique.
A régua: a margem de antes da guerra
A referência de comparação apontada é a margem praticada antes da guerra do Irã, que começou em fevereiro. Segundo a TV Brasil, a multa será aplicada caso seja identificada margem de lucro acima de 70% em relação à praticada antes do conflito, e o valor pode chegar a R$ 14 milhões, teto previsto no Código de Defesa do Consumidor.

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Vale uma ressalva honesta. Não encontramos o documento oficial da Senacon detalhando esse critério, e outra cobertura trata os 70% como o aumento de margem que a ANP encontrou em diversos postos, não como limite fixo para multar. Sabe-se que os Procons receberam da Senacon modelos de autos de infração e de constatação, uma nota técnica e uma planilha padronizada para registrar os dados — é essa nota técnica que define a metodologia. Sindicatos que quiserem orientar seus associados com precisão devem solicitá-la.
Para o posto, porém, a conclusão prática é a mesma com ou sem o número exato: a sua margem de fevereiro virou a linha de base contra a qual você será comparado.
O diesel está no centro, e a operação já está na rua
Os dados apresentados pela Senacon mostram maior preocupação com o diesel S-10, que chegou a R$ 7,13 de média nacional em 19 de setembro, com alta de 2,3% em uma semana. As maiores variações foram registradas na Bahia, em Mato Grosso, em Pernambuco, em Sergipe e no Tocantins. No mesmo período, a gasolina comum subiu 0,2% e o etanol, 3,3%. E o custo na origem não deve aliviar a pressão por esse lado: o governo manteve a subvenção de R$ 2,12 por litro no diesel por mais 30 dias, o que tira do posto o argumento do fim do benefício para reajustar.
As fiscalizações já começaram no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Paraná. No Distrito Federal, a operação desta sexta-feira (25) ocorreu depois que postos subiram a gasolina em R$ 0,20 na quinta, com o litro chegando a R$ 6,89 em alguns estabelecimentos. Segundo a Senacon, já foram identificados postos que elevaram a margem sem apresentar justificativa. Os nomes não foram divulgados.
Onde o posto honesto pode se complicar
Há uma armadilha que merece atenção, porque pode pegar quem não fez nada de errado. É comum o posto reajustar a bomba pelo custo de reposição — o preço da próxima carga — enquanto ainda vende o estoque comprado mais barato. É uma prática com lógica econômica: se o posto não repassar, compra a carga seguinte no prejuízo.
O problema é que, se a margem for medida sobre o custo do produto efetivamente vendido, esse reajuste aparece como salto de margem. Quem não tiver como mostrar que a carga nova veio mais cara, e quando veio, fica exposto a ser enquadrado no mesmo grupo de quem abusou de verdade.
Nas últimas semanas houve custo real subindo na origem: a refinaria de Mataripe elevou o diesel em até R$ 0,87 por litro, e a ANP multou distribuidoras em mais de R$ 200 milhões por margens que subiram mais de 1.350%. Parte do aumento que chegou à bomba veio de cima. O posto que repassou custo precisa conseguir provar isso.
O que ter pronto antes de a fiscalização chegar
O histórico de margem desde fevereiro. Preço de venda e custo de aquisição por litro, produto a produto, mês a mês. É a comparação que a fiscalização vai fazer, e é melhor que o posto a tenha feito antes.
As notas fiscais de compra organizadas por data. Cada reajuste na bomba precisa ter, arquivada, a nota da carga que o justifica. Sem a nota, o repasse de custo vira indício de abuso.
O registro de cada alteração de preço. Data e hora em que o valor mudou na pista. A sequência importa: o custo subiu antes, a bomba subiu depois.
Um responsável pelo prazo. Vinte dias para defesa passam rápido. Notificação que chega ao posto precisa ser protocolada no mesmo dia e levada ao jurídico. Como a operação depende de denúncia de consumidor, qualquer posto pode ser notificado — inclusive os que estão regulares.
A operação ocorre às vésperas das eleições presidenciais de 4 de outubro, num momento de pressão política sobre o preço dos combustíveis. Isso não muda a regra, mas explica o ritmo. A tendência é de fiscalização intensa nas próximas semanas. A reportagem acompanha os desdobramentos e atualizará conforme novos fatos.
Perguntas e respostas
O que é a Operação Carga Pesada?
É uma mobilização nacional da Secretaria Nacional do Consumidor, com Procons estaduais e municipais e a ANP, para apurar aumentos abusivos nas margens de lucro de postos de combustíveis. Começou em 22 de setembro, após cerca de 330 denúncias à ANP, e já resultou em 70 processos administrativos contra postos.
A Senacon multa o posto por preço alto?
Não. Segundo o secretário Ricardo Morishita, o órgão não multa preço na bomba nem aumento de preço, e sim o aumento injustificado da margem de lucro, com base no artigo 39, inciso X, do Código de Defesa do Consumidor. A Senacon informou que não há um preço específico considerado abusivo.
Qual é a referência usada para medir a margem?
A margem praticada antes da guerra do Irã, iniciada em fevereiro. Segundo a TV Brasil, a multa ocorre se for identificada margem acima de 70% em relação a esse período. A metodologia oficial está em nota técnica repassada pela Senacon aos Procons, que sindicatos podem solicitar.
Qual é o prazo e a multa para o posto notificado?
O posto tem 20 dias para apresentar defesa. Se a irregularidade for confirmada, cabem multa e outras sanções do Código de Defesa do Consumidor. Segundo a TV Brasil, o valor pode chegar a R$ 14 milhões, teto previsto na legislação.
Como o posto prova que o reajuste foi justo?
Com o histórico de margem por produto desde fevereiro, as notas fiscais de compra organizadas por data e o registro de cada alteração de preço na pista. A sequência precisa mostrar que o custo de aquisição subiu antes e o preço na bomba subiu depois.

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