▶ Artigo publicado no site Global Convenience Store Focus

Brasil. Um país de dimensões continentais. Clima tropical. Um povo alegre, sorridente, batalhador. Paisagens deslumbrantes, onde a natureza é fascinante, desde a Floresta Amazônica aos pampas gaúchos.

Praias paradisíacas. Samba, Carnaval, futebol. Destino que seduz turistas do mundo inteiro, despertando a vontade de terem seus passaportes carimbados e ouvirem a calorosa saudação: “Bem-vindo ao Brasil”.

Este é o Brasil conhecido por esse mundo afora. Também é foco de questões importantes relacionadas ao meio ambiente, cenário político-econômico e, hoje, à pandemia que atinge o planeta. Nos últimos anos, o país vinha se recuperando de uma grave recessão econômica, mas com a crise provocada pela COVID-19, há muitas incertezas e desafios pela frente.

Apesar da pandemia ter trazido adversidades nunca antes imaginadas, o mercado brasileiro de lojas de conveniência continua em expansão e evolução. Os novos hábitos e necessidades do consumidor que surgiram por causa do vírus fizeram com que o canal se adaptasse e trouxesse soluções criativas para as demandas do momento. 

Na maioria dos municípios brasileiros, as lojas dos postos de serviços podem operar durante períodos de lockdown e isolamento, como comércio essencial. E, desde o início, se mostraram prontas a atender um consumidor ainda mais exigente, apressado, e, agora, bastante preocupado com a saúde. Além disso, a COVID-19 chamou a atenção dos consumidores para as lojas de conveniência que oferecem uma gama de soluções com comodidade e presteza. A conveniência nunca foi tão relevante! Tanto do ponto de vista do varejista quanto do consumidor. Um fato positivo em meio a tanta tensão.

O MERCADO BRASILEIRO DE LOJAS DE CONVENIÊNCIA

Com mais de 8.100 pontos de vendas em postos de serviços, o segmento vem crescendo consistentemente em número de lojas e em receita nos últimos 10 anos.

Desde a abertura da primeira loja de conveniência, há 34 anos atrás, o segmento vem se ajustando às mudanças que o mercado impõe, passando por transformações, fortalecendo o seu importante papel no dia a dia atribulado do consumidor.

Lojas franqueadas representam cerca de 60% do total de C-Stores, em postos de bandeiras Ipiranga (AmPm), Petrobras (BR Mania) e Shell (Select). O restante divide-se em redes licenciadas, como das marcas EntrePosto e Aghora; lojas próprias, como das redes Mime e Sim; além de lojas sem bandeira.  

É interessante refletir sobre os movimentos e rumos do mercado de conveniência no Brasil. Sem dúvida, há muito espaço para expansão – segundo dados do último Anuário do setor, as lojas estão presentes em apenas 20% dos postos de serviços. 

Os consumidores brasileiros, com estilos de vida acelerados, procuram e gostam das lojas – enxergam valor no negócio.

Os revendedores têm, nas lojas, outra fonte de receita, importante âncora, especialmente em períodos mais difíceis.

A indústria, ao longo dos anos, sempre deu suporte e investiu no segmento, e parcerias sólidas têm ajudado esse mercado a crescer e prosperar.

Tudo a favor da multiplicação desse virtuoso formato de varejo. A proposta da conveniência se adequa, cada vez mais, às necessidades do cliente que procura praticidade e rapidez em sua rotina, buscando resolver suas demandas em uma única parada, principalmente agora com as restrições impostas pela pandemia. A experiência sem atrito é cada vez mais valorizada e, hoje, muito relevante. 

MERCADOS DE PROXIMIDADE

O varejo de proximidade é uma tendência no Brasil, assim como em muitos mercados ao redor do mundo. 

Em resposta à demanda do consumidor por maneiras práticas e convenientes de fazer compras, hipermercados e supermercados experientes lançaram, nos últimos anos, versões menores como “lojas de proximidade” – oferecendo não apenas produtos para pequenas compras, recarga / reposição e compras de emergência, mas também itens de serviço de alimentação.

Redes como Carrefour Express, Minuto Pão de Açúcar, Hirota Food Express, Minimercado Extra, entre outras, estão em franca expansão e a concorrência é acirrada. Segundo a Nielsen, em 2019 já existiam mais de 3.100 mercados desse formato no Brasil, o que representou um crescimento de 35% em três anos – movimento impulsionado principalmente por grandes redes varejistas. Nesse período, a proporção de domicílios que fazem compras em feiras de bairro passou de 19% para 26,4%.

Espera-se que esta tendência de crescimento continue, seguindo planos de desenvolvimento ambiciosos. E novas marcas tentarão conquistar fatias generosas do mercado. Embora as lojas de proximidade apresentem alguns atributos da C-Store, o consumidor brasileiro ainda associa o nome / conceito “conveniência” às lojas dentro dos postos, o que é uma vantagem competitiva para as operadoras – e um importante estímulo para aumentar a presença de conveniência nos locais que possuem ainda não entrou neste negócio próspero.

O aumento da necessidade de mais comodidade, proximidade com casa / trabalho e rapidez, fez com que as marcas de petróleo também lançassem lojas autônomas, como mercados de proximidade.

Mudanças de comportamento entre os consumidores estão acontecendo em velocidade recorde. As pessoas não têm tempo a perder. Neste contexto, intensifica-se a procura de soluções simples e que poupam tempo e a concorrência.

RESPOSTA EFICIENTE À PANDEMIA

Grandes desafios foram impostos pela pandemia, logo que ela chegou no canal: aceleração da tecnologia digital, menos contato humano e mais automação, cuidado extra com higienização e segurança de clientes e funcionários, tudo com a promessa de uma experiência positiva para consumidores em meio ao caos. Mas, talvez o principal desafio tenha sido (e ainda é) manter vendas e lucro no cenário adverso, de incerteza e de insegurança.

Quando tudo parecia desmoronar e a onda de negatividade tomou conta do mercado, a resposta das lojas de conveniência às novas demandas foi surpreendente.

Algumas iniciativas superaram expectativas e aqueceram o canal.

Claro, não estamos nos referindo à adaptação ao básico, que por sinal foi eficiente: procedimentos de higienização, álcool gel para clientes, uso de máscaras, face shields para as equipes e mascáras de proteção foram prontamente implementados nos pontos de vendas. Falamos de mudanças significativas que envolvem novas ofertas de serviços, tecnologias e formatos de negócios.

As vendas foram impactadas, de início, devido às restrições que afetaram, principalmente, a pista e, como consequência, o movimento das lojas diminuiu. Com o tempo, as vendas foram sendo recuperadas e o consumidor viu que podia contar com o conforto e praticidade da conveniência, seja para uma compra rápida ou para um lanche.

Experiências de compras sem atrito, como meios de pagamento sem contato, e delivery, por exemplo, eram iniciativas ainda insipientes no mercado brasileiro.

Por causa das mudanças na jornada do consumidor causadas pela COVID-19, o canal apertou o acelerador para apresentar respostas tecnológicas e serviços mais eficientes. Meios de pagamento digitais deram o conforto de pagamento sem contato, menus em QR Code proporcionaram a segurança do pedido sem tocar em cardápios. E programas de cashback ajudaram a fidelizar o consumidor. A oferta online foi ampliada, com as alternativas retirada na loja ou entrega em casa – muitas lojas lançaram parceria com empresas de delivery (como Uber Eats, iFood e Rappi).

Em momentos de queda de fluxo de pessoas nos pontos de vendas devido a políticas de restrições de circulação de pessoas, o delivery tem segurado as vendas e garantido a satisfação do cliente.

As lojas ampliaram o sortimento de categorias como Higiene / Limpeza e Mercearia. No Food Service, a oferta de itens grab & go foi ampliada, além da preocupação com itens saudáveis para consumo – o cuidado com a alimentação saudável ganhou força na pandemia.

LOJAS AUTÔNOMAS EM CONDOMÍNIOS

Uma inovação criativa que emergiu com a pandemia foi um novo formato de conveniência: lojas autônomas dentro de condomínios residenciais ou corporativos. Antes da COVID-19, o mercado brasileiro tinha poucas lojas no formato inspirado pela Amazon Go, como as da rede ZAITT, em lojas de rua. 

Com o vírus e a mudança de rotina – isolamento e home office – as pessoas passaram a fazer tudo em casa (e no seu entorno), o que tornou o formato ainda mais atraente. A promessa de “hiperproximidade” e conveniência aliada à inteligência artificial permitiram a expansão dessas lojas, lançada por diversas startups que apostaram no setor. Omnibox, Onii, Zuper, QiSar Home são algumas das empresas que se especializaram em varejo autônomo e instalaram seus negócios em containers ou salas em condomínios, em diferentes regiões do Brasil.

A rede de supermercados Hirota, já atuante no varejo de proximidade com sua Hirota Food Express, lançou Hirota em Casa e está em franca expansão. Já são mais de 20 lojas em condomínios em São Paulo, totalmente autônomas, com self-checkout e carteira digital, vendendo bebidas não alcoólicas, cervejas, snacks, bomboniere, pratos prontos, mercearia, higiene e limpeza, entre outras categorias. A Euromonitor International elegeu a Hirota em Casa como case mundial de inovação em varejo durante a pandemia de COVID-19. 

É LOGO ALI

É LOGO ALI

É logo ali: este é o novo posicionamento da AmPm, operada no Brasil pela Ipiranga, da holding Ultrapar, e ainda promete: “tudo que você precisa pertinho da sua casa”.

A AmPm é a maior rede de lojas de conveniência do país, com mais de 2.000 pontos de vendas prontos para servir os diversos perfis de consumidores, no seu dia a dia em movimento. Com uma oferta de pães muito bem formatada, a AmPm possui a maior rede padarias do Brasil, com mais de 900 unidades. 

Cada vez mais atuante no mercado brasileiro de conveniência, antes da COVID-19 a Ipiranga já estava desenvolvendo o projeto da “nova AmPm”, baseada nas diferentes jornadas e demandas do consumidor, e o lançou no início de 2020.  Vale destacar que as novidades – que foram muitas, desde o design contemporâneo até inovações tecnológicas – tiveram um fit perfeito para atender as necessidades que realidade atual impõe.

O novo conceito tem um maior sortimento de produtos, especialmente na categoria de food service, que inclui itens como pizza, sanduíches e salgados.

A Ipiranga colocou em prática um estudo que mapeou todas as jornadas de compras do cliente “omnichannel” e trouxe soluções digitais para uma experiência rápida e fluida, seja no ponto de vendas ou com a utilização de marketplace. As respostas vieram de encontro com a busca de uma compra com pouco contato físico e sem atrito.

O drive thru digital, por exemplo, permite que o cliente faça a sua compra sem sair do carro. Lendo um QR Code na pista do posto, ele acessa, pelo celular, o cardápio e faz a compra, que é entregue, confortavelmente, no carro, por um funcionário da loja. 

De casa, o cliente pode acessar a AmPm seja nos principais marketplaces do país.

O Room Service também é uma inovação que surgiu com a pandemia em lojas próximas a centros empresariais. Acessando o cardápio por QR Code, o pagamento é feito pelo celular. O cliente escolhe como quer receber seu pedido – se no próprio escritório ou pick up.

Ainda, em dezembro de 2020, a AmPm inaugurou sua primeira loja de rua dando início a testes de operação fora do posto Ipiranga. O objetivo é levar conveniência para o cliente, esteja ele onde estiver, funcionando como um “bom vizinho”.

PARCERIA ESTRATÉGICA

Uma nova parceria recentemente anunciada também aquecerá o mercado brasileiro de lojas de conveniência.

A Petrobras Distribuidora (BR) e as Lojas Americanas* (empresa brasileira do segmento de varejo, atuando em plataformas físicas e digitais) anunciaram, no dia 25 de fevereiro, a criação de uma nova sociedade para operar no negócio de conveniência, dentro e fora de postos de serviços, por meio das redes de lojas BR Mania e Local.

Conforme declarado publicamente, a BR tem aproximadamente 1.200 lojas BR Mania franqueadas e a Americanas possui 55 lojas Local (marca das lojas de conveniência da Americanas), com operação própria. A marca BR Mania permanecerá nas lojas dos postos, e as unidades fora de postos terão a marca Local. Na rede, haverá operação tanto de lojas próprias quanto franqueadas.

A aliança entre as duas gigantes deve impulsionar a expansão e o fortalecimento do canal de conveniência no Brasil, que se beneficiará do amplo conhecimento de varejo de ambos os parceiros, presença nacional em pontos de venda, logística, abastecimento, tecnologia, atuação no varejo digital , etc. Ela visa uma nova proposta de valor para clientes, franqueados, operadores e atendentes de loja, em alinhamento com sua visão estratégica de oferecer soluções de  conveniência relacionadas à mobilidade e melhorar a experiência do cliente.

A formalização dessa parceria depende, entre outros requisitos, de autorização do órgão regulador do governo, o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

Pouco antes do início da pandemia, os postos Petrobras Distribuidora e lojas BR Mania lançaram novo visual, mais moderno e dinâmico. Nos últimos anos, a BR Mania vinha implementando várias inovações digitais e, em 2020, a rede acelerou a adoção de novas tecnologias e formas de facilitar a rotina atual dos consumidores – métodos de pagamento digital sem toque, cashback, pedidos online por aplicativos de entrega, junto com medidas de segurança para proteger os clientes e funcionários.

*A Americanas possui diferentes marcas/formatos de lojas físicas (Lojas Americanas, Americanas Express, Local, AmeGo) totalizando mais de 1.700 unidades no Brasil, além de uma robusta plataforma digital, com marketplace e sistema de cashback) e 4 centros de distribuição.

OXXO NO BRASIL

Em agosto de 2019, uma notícia mexeu com o mercado brasileiro de conveniência: a Raízen, licenciada da marca Shell, anunciou a formação de uma joint venture com a Femsa Comercio, multinacional mexicana líder no segmento de lojas de conveniência e de proximidade na América Latina, com mais de 19.000 lojas nessa região (México, Colômbia, Chile, Peru e, agora, no Brasil).

A união resultou, um ano depois, na criação de uma nova empresa: o Grupo Nós, atuando no varejo com cerca de 1.200 lojas de conveniência da marca Shell Select nos postos de combustíveis, e com as lojas de proximidade OXXO.

A empresa, que nasceu em plena pandemia com a promessa de facilitar a rotina dos clientes, ajudando-os a ter mais tempo livre, inaugurou sua primeira loja no segmento de proximidade em 1º dezembro de 2020, em Campinas – em menos de três meses já eram nove unidades OXXO na cidade.

Levando o conceito de conveniência a um minimercado, praticando preços competitivos e promoções, as lojas têm uma gama de produtos muito ampla – oferecem ao consumidor itens de padaria, hortifruti, mercearia, higiene e limpeza, açougue, bebidas, snacks, entre outras categorias. Proporciona fácil acesso a produtos para reposição diária em pontos de venda 

A oferta de padaria é um dos destaques da nova loja, com produção própria de pães, sempre frescos.

Há, ainda, um importante foco no Food Service, com grande variedade de sanduíches, pizzas, salgados, refeições prontas, sobremesas e bebidas quentes e geladas. Ainda como diferencial do OXXO em relação a outros mercados de proximidade é a oferta de bebidas não alcoólicas e cervejas sempre geladas, expostas em walk in coolers.

Parte importante na estratégia de crescimento dos negócios, a rede de C-Stores Shell Select, em sua grande maioria de lojas franqueadas, teve sua nova geração de lojas lançada em 2018, apresentando um layout mais moderno e uma operação mais simples e rentável para o franqueado, com menores custos operacionais. O faturamento médio das lojas do novo formato aumentou em 20% versus o ano anterior. 

Assim como no canal em geral, a pandemia de Covid-19 agilizou a implantação de processos para atender os novos hábitos e necessidades dos consumidores. O serviço de delivery, em parceria com as principais empresas do setor, também foi implementado, o que, aliado à oferta de padaria, food service e produtos não-perecíveis, tem ajudado a segurar as vendas em momentos de lockdown e restrições de mobilidade. 

O Grupo Nós planeja abrir 500 lojas nos próximos três anos, na região sudeste do Brasil, entre Shell Select e OXXO.

TENDÊNCIAS E OPORTUNIDADES

As novas tendências e tecnologias desencadeadas pelo COVID-19 vieram para ficar. A ideia de omnicanal agora é mais forte. Como as compras na loja nem sempre são viáveis, os consumidores brasileiros estão naturalmente se engajando em experiências de compras físicas e digitais integradas – eles querem que sejam mais simples, rápidas e práticas. Portanto, as lojas de conveniência devem se empenhar em acompanhar as soluções para essas demandas, dentro ou fora dos postos.

Os destaques da conveniência brasileira continuam a se concentrar, agora com mais intensidade, no Food Service, que tende a crescer no sortimento e na participação nas vendas. Ofertas melhores para você estão ganhando força entre os clientes à medida que eles recebem um alerta sobre a importância de sua saúde e bem-estar – a pandemia levou a uma mudança para alimentos mais saudáveis.

As opções de entrega e drive-thru continuarão a crescer. Os programas de fidelidade e cashback são provavelmente mais relevantes.

O conceito de conveniência foi ampliado aos olhos do consumidor e, por mais paradoxal que possa soar, a pandemia trouxe essa “vantagem” para o canal. Postos sem C-Store devem repensar seus negócios e considerar a entrada no segmento que deve se destacar daqui para frente. Além disso, grandes redes varejistas também estão contribuindo para aproximar a conveniência do cliente, ampliando seu alcance nos mercados de proximidade. Portanto, a competição vai crescer. E isso é ótimo!

Escrito por Giselle Innecco Valdevez Castro , Co-fundadora e Diretora Executiva da Valsa e Representante Regional da NACS para o Brasil.

Publicado originalmente no endereço: https://www.globalconveniencestorefocus.co.uk/features/brazilian-convenience-retail-market/

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