Por Renato da Silveira – CEO da Brasil Postos
A liberação do autodespacho no país vizinho avança em ritmo bem mais lento do que o previsto — e a experiência traz lições diretas para o empresário brasileiro.
Quando o governo argentino regulamentou o autosserviço de combustíveis, muitos especialistas acreditaram que o país viveria uma transformação semelhante à observada nos Estados Unidos e em diversos países da Europa.
A expectativa era simples: reduzir custos operacionais, aumentar a produtividade dos postos, acelerar o abastecimento e modernizar a experiência do consumidor. No entanto, a realidade tem sido diferente.
Embora o modelo esteja avançando em algumas regiões e grandes redes, a adoção está ocorrendo em um ritmo muito mais lento do que o previsto inicialmente. A experiência da Argentina traz uma reflexão importante para os empresários brasileiros: aprovar uma lei é muito mais fácil do que transformar a operação de um posto de combustíveis.
Resumo
ToggleO autosserviço foi liberado, mas não conquistou os postos argentinos
Segundo informações divulgadas pelo portal Surtidores, o autodespacho vem ganhando espaço em algumas regiões do interior argentino, mas ainda está longe de se tornar uma realidade predominante no mercado.
A autorização governamental criou a possibilidade de implantação, mas a decisão final continua sendo do empresário. E é justamente nesse ponto que surgem os desafios. A maioria dos revendedores passou a analisar uma questão fundamental: o investimento realmente vale a pena?
O principal obstáculo é econômico
Ao contrário do que muitos imaginam, o maior desafio do autosserviço não está relacionado à tecnologia ou à legislação. O principal problema é financeiro. Para implementar o sistema, o posto precisa investir em:
- Modernização das bombas;
- Sistemas de pagamento integrados;
- Equipamentos de monitoramento;
- Comunicação visual;
- Adequações de segurança;
- Treinamento operacional.
Em grandes redes, como a YPF, esses investimentos são mais facilmente absorvidos. Tanto que a companhia já ultrapassou a marca de 100 postos operando com autodespacho.
Porém, para a maioria dos revendedores independentes, especialmente os localizados no interior do país, a conta ainda não fecha. Muitos empresários simplesmente não conseguem enxergar um retorno financeiro suficientemente atrativo para justificar o investimento.
O consumidor continua valorizando o atendimento humano
Outro fator que explica a lenta expansão do modelo é o comportamento dos consumidores. Na teoria, abastecer o próprio veículo parece simples. Na prática, muitos clientes continuam preferindo o atendimento realizado por um profissional.
O abastecimento envolve segurança, conveniência e confiança. Por isso, uma parcela significativa dos consumidores argentinos ainda opta pelo modelo tradicional. Essa realidade reforça uma conclusão importante: a experiência do cliente continua sendo um dos principais diferenciais competitivos dos postos.
Inclusive, esse desafio se conecta diretamente ao tema abordado pela Brasil Postos no artigo “O Gargalo Invisível: Por que a falta de mão de obra na pista virou risco de continuidade para o seu posto?” — disponível no Portal Brasil Postos.
Independentemente da tecnologia utilizada, postos de combustíveis continuam dependendo de equipes preparadas para atender, orientar e fidelizar clientes.
O autosserviço não eliminou a necessidade de profissionais
Um dos argumentos mais utilizados pelos defensores do autosserviço é a possibilidade de redução dos custos trabalhistas. Porém, a experiência argentina mostra que a realidade é mais complexa.
Mesmo nos postos que operam com autodespacho, continua sendo necessária a presença de profissionais treinados para:
- Orientar os clientes;
- Garantir o cumprimento das normas de segurança;
- Solucionar falhas operacionais;
- Atuar em situações de emergência;
- Apoiar o atendimento.
Ou seja, o autosserviço não significa ausência de equipe. Na prática, ele exige profissionais ainda mais preparados. Essa necessidade reforça a importância da liderança operacional na pista.
Para aprofundar esse tema, recomendamos a leitura do artigo “A Importância do Líder de Pista em Postos de Combustíveis”: ler no Brasil Postos.
Nem toda a Argentina aderiu ao modelo
Outro desafio enfrentado pelo setor é a questão regulatória. Embora exista autorização nacional para o autodespacho, algumas províncias ainda possuem regras próprias que dificultam ou retardam a implementação.
É o caso da Província de Buenos Aires, onde entidades empresariais continuam pressionando pela atualização da legislação local. Esse cenário gera insegurança para investimentos de longo prazo e reduz o ritmo de expansão do modelo.
E no Brasil? O debate voltou ao Congresso Nacional
Enquanto a Argentina tenta acelerar a adoção do autosserviço, o Brasil ainda discute a possibilidade de sua regulamentação. Atualmente, a Lei nº 9.956/2000 proíbe o autosserviço em postos de combustíveis.
Entretanto, o tema voltou ao debate por meio do Projeto de Lei nº 2.826/2026, de autoria do deputado federal Delegado Marcelo Freitas. A proposta prevê a autorização facultativa do autosserviço aos finais de semana e feriados, desde que haja profissionais treinados para orientação e situações de emergência.
A tramitação pode ser acompanhada diretamente no portal da Câmara dos Deputados. A proposta também foi destaque na imprensa nacional, no Congresso em Foco.
Mas a experiência argentina traz um alerta importante para o mercado brasileiro: a simples aprovação da lei não garante a adoção do modelo. A decisão continuará dependendo da análise econômica de cada empresário.
Tecnologia sozinha não resolve o problema
Outro aprendizado importante da Argentina é que a modernização dos postos não depende apenas da legislação. Ela exige planejamento, investimento, treinamento e gestão.
Aliás, esse tema já vem sendo discutido pela Brasil Postos no artigo “Autoatendimento na Pista de Abastecimento: confira como esta solução pode facilitar a operação do seu posto”: ler no Brasil Postos.
A tecnologia pode trazer ganhos importantes, mas somente quando acompanhada por processos bem estruturados e equipes capacitadas.
O verdadeiro diferencial continuará sendo a gestão
Independentemente da evolução do autosserviço, uma certeza permanece: os postos mais rentáveis continuarão sendo aqueles melhor administrados.
Controle operacional, indicadores de desempenho, liderança de equipes, experiência do cliente e gestão financeira continuarão determinando os resultados do negócio.
Por isso, empresários que desejam fortalecer a gestão do posto devem conhecer também os conteúdos:
- “Dicas de Gestão em Posto de Gasolina”: ler no Brasil Postos
- “O Desafio na Gestão de Postos: A Importância do Gerente para uma Operação de Sucesso”: ler no Brasil Postos
A Academia de Ensino Brasil Postos já prepara o mercado para o futuro
Enquanto o Brasil ainda discute mudanças na legislação sobre o autosserviço, a Academia de Ensino Brasil Postos continua formando os profissionais que irão liderar o futuro do setor.
O grande destaque é o Curso de Frentista Brasil Postos, reconhecido nacionalmente por ser o único curso de formação de frentistas do país com certificação reconhecida pelo MEC. A formação aborda temas fundamentais para o sucesso da operação:
- Atendimento ao cliente;
- Segurança operacional;
- Técnicas de abastecimento;
- Vendas de pista;
- Prevenção de acidentes;
- Excelência no atendimento.
Conheça o Curso de Frentista MEC
Também recomendamos a leitura do conteúdo “Curso Frentista de Alta Performance”: ler no Brasil Postos.
Afinal, independentemente de existir ou não autosserviço, postos de combustíveis continuarão precisando de profissionais preparados para gerar segurança, produtividade e resultados.
Conclusão
A experiência argentina mostra que o autosserviço não fracassou. Mas também mostra que sua expansão está muito longe da velocidade imaginada quando a regulamentação foi anunciada.
O principal motivo não é político nem trabalhista. É econômico. Para a maioria dos postos, o investimento necessário ainda não gera retorno suficiente para justificar a mudança.
Essa é uma lição valiosa para o mercado brasileiro. O futuro dos postos será definido não apenas pela tecnologia disponível, mas principalmente pela capacidade dos empresários de equilibrar inovação, rentabilidade e excelência operacional. E, nesse cenário, pessoas bem treinadas continuarão sendo um dos ativos mais importantes de qualquer operação.
Por Renato da Silveira · CEO da Brasil Postos









