Apesar da pressão do governo federal após crise entre EUA e Irã que pode interferir no preço do petróleo, secretários de Fazenda dizem que medida comprometeria arrecadação

Brasília – A pressão do governo federal por uma revisão na tributação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre combustíveis, a fim de reduzir o aumento de preço ao consumidor nas bombas, é rejeitada pelos estados.

Secretários estaduais de Fazenda apontam que a arrecadação sobre combustíveis representa uma fatia significativa dos recursos estaduais e que a situação financeira não permite aos governadores abrir mão de receitas.

Estados rejeitam reduzir ICMS por preço menor do combustível
Por isso, está descartada qualquer redução de alíquota. Hoje, o ICMS sobre combustíveis responde entre 18% e 20% da arrecadação dos estados. As alíquotas cobradas variam por ente e podem chegar a 34% no topo para a gasolina, a 25% para o diesel e a 32% para o etanol, segundo dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), entidade formada por 34 sindicatos patronais que representa os interesses de cerca de 42 mil postos revendedores no país.
“Só em 2020, estimamos que ao menos R$ 60 bilhões serão arrecadados sobre a gasolina. Trata-se de receita fundamental para a condução das administrações públicas estaduais”, afirmou o diretor do Comitê de Secretários de Fazenda (Comsefaz), André Horta.
Estados rejeitam reduzir ICMS por preço menor do combustível

“Combustíveis são extremamente relevantes no ICMS hoje em dia. No Rio Grande do Sul, representam 18% da arrecadação de ICMS total”, compelta o secretário de Fazenda gaúcho, Marco Aurélio Melo. O assunto, que já chegou a ser discutido durante a greve dos caminhoneiros, em 2018, voltou a ser ventilado pelo presidente Jair Bolsonaro na segunda-feira e ontem.

Bolsonaro sugeriu que os estados ajudem reduzindo sua parcela com o ICMS e que o tributo estadual incida sobre o preço nas refinarias, e não sobre o praticado pelas distribuidoras. A despeito das declarações do presidente, os secretários afirmam que não foram formalmente procurados pelo governo e que o assunto tampouco deve estar na pauta da próxima reunião extraordinária do Comsefaz, marcada para 21 de janeiro, em Brasília. Fontes do Ministério da Economia dizem que a área técnica do governo não deve fazer proposta formal aos estados para que reduzam as alíquotas.

”’Só em 2020, estimamos que ao menos R$ 60 bilhões serão arrecadados sobre a gasolina. Trata-se de receita fundamental para a condução das administrações públicas estaduais”

André Horta, diretor do Comitê de Secretários de Fazenda (Comsefaz)

Durante a greve dos caminhoneiros de 2018, o governo também tentou convencer os estados a baixar a alíquota, dessa vez apenas sobre o diesel, para estancar a paralisação. Na época, chegou a convocar reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), que foi esvaziada. No fim, conseguiu o apoio de alguns estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, que efetivamente reduziram o tributo sobre o óleo na tentativa de dirimir os efeitos da greve sobre suas contas.

Dessa vez, os estados cobram solução exclusivamente federal e argumentam que os governadores administram cofres muito apertados. “Entendemos que a alta do petróleo vai afetar o consumo lá na ponta (na bomba), mas para nós é absolutamente fundamental a arrecadação sobre combustíveis. O problema deveria ser visto sistematicamente, o que pode ser feito de forma federal? O ICMS sempre apanha, mas a situação dos estados e o tamanho do impacto dos combustíveis não nos dão asas para baixar a alíquota”, destaca a secretária do Ceará, Fernanda Mara.
“Cremos que há alternativas menos impactantes para os estados, como a redução de PIS/Cofins, que é uma arrecadação federal”, aponta Melo, do Rio Grande do Sul. Dentro do Ministério da Economia, contudo, uma queda na alíquota de PIS/Cofins sobre combustíveis não está na mesa: “Os tributos federais já foram muito reduzidos e nova redução traria pouco impacto”, afirmou uma fonte da área técnica.
Estados rejeitam reduzir ICMS por preço menor do combustível
Os secretários citam ainda a possibilidade de, no futuro, criar algum fundo federal de estabilização de preços. A ideia já foi aventada também durante a greve dos caminhoneiros pelo ex-ministro Henrique Meirelles, hoje secretário de Fazenda de São Paulo. Segundo a proposta à época, o fundo amorteceria os preços, capitalizando recursos quando o preço do petróleo caísse e utilizando o dinheiro quando a cotação do barril subisse.
Estados rejeitam reduzir ICMS por preço menor do combustível

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