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Eletrificados são 22% das vendas de leves e frota se aproxima de 1 milhão

Frota circulante deve passar de 1 milhão ainda em setembro, e o gargalo que aparece primeiro não é energia — é serviço especializado

De janeiro a agosto, o Brasil emplacou 328.477 veículos leves eletrificados, alta de 160,5% sobre o mesmo período do ano passado. Só em agosto foram 57.074 unidades, avanço de 184% na comparação anual. Com isso, os eletrificados chegaram a 22% de todas as vendas de leves no mês — a maior participação mensal já registrada. Os dados são da Associação Brasileira do Veículo Elétrico.

A frota circulante contabilizada pela entidade desde 2012 soma cerca de 950 mil unidades, e a expectativa é cruzar 1 milhão ainda neste mês. Para 2026 inteiro, a ABVE projeta algo perto de 450 mil vendas.

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Antes do susto, leia a palavra certa: eletrificado

Vale desmontar a manchete antes de tirar conclusão sobre volume de pista. O número de 22% não é de carro elétrico puro. É de eletrificado, categoria que junta o 100% elétrico, o híbrido plug-in e o híbrido convencional. Segundo a ABVE, elétricos puros e plug-in concentram mais de 80% das vendas de eletrificados no acumulado do ano.

A distinção importa para o posto porque híbrido continua abastecendo. O plug-in abastece menos e com intervalo maior; o híbrido convencional abastece quase como um carro comum, só com consumo melhor. Nenhum dos dois some da pista — muda a frequência e o tíquete.

Há também a diferença entre venda e frota. Uma coisa é o eletrificado representar 22% do que se vende hoje; outra é o que já roda por aí. A frota eletrificada ainda não chegou a 1 milhão de unidades num país com dezenas de milhões de veículos. O efeito sobre a demanda de combustível é gradual, não abrupto. Mas a direção está dada, e ela não se inverte.

O gargalo que apareceu primeiro foi oficina, não tomada

A parte mais útil da reportagem não está nos números de venda. Está no que o mercado de seguros descobriu quando essa frota começou a bater.

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Em abril, a Federação Nacional de Seguros Gerais publicou um guia sobre os impactos dos eletrificados no setor. O documento aponta menor disponibilidade de peças, custo de importação e transporte de componentes, necessidade de oficinas especializadas, baterias de alta tensão e assistência adequada a esse tipo de veículo. Fatores que, para a entidade, pressionam o custo de manutenção e, no médio prazo, a própria precificação do seguro.

Na ponta, a Seguralta, rede de franquias de corretagem, diz que hoje não há diferença de aceitação, de número de seguradoras dispostas a cobrir nem de valor de prêmio entre eletrificado e combustão. Não há recusa de cobertura, mas é preciso contratar cobertura específica para a bateria de alta tensão. O que já muda é o prazo: o reparo de eletrificado tende a demorar mais, pela lentidão na chegada de componentes e pela falta de oficinas referenciadas.

Guarde essa frase: falta de oficinas referenciadas. Ela descreve uma demanda existente, com cliente segurado e seguradora pagando, sem quem atenda.

Onde isso encosta no posto

A leitura óbvia é defensiva: menos litro por carro, margem de pista sob pressão no longo prazo. É verdade, e já tratamos disso aqui. Mas há uma leitura ofensiva que quase ninguém está fazendo.

Híbrido dá manutenção — e dá bem. Motor a combustão exige troca de óleo, filtro e fluido como qualquer carro. O que muda é o padrão de desgaste: freio dura mais, por causa da frenagem regenerativa, e pneu costuma durar menos, pelo peso extra da bateria. Quem opera troca de óleo e serviço automotivo no posto tem aí um perfil de cliente com ticket médio alto e frequência de pista menor. Compensar volume com serviço deixou de ser discurso.

O tempo parado virou ativo. Recarga não é abastecimento de cinco minutos. É de vinte a quarenta, no mínimo. Para a pista, isso é um problema de rotatividade. Para a loja de conveniência, é o oposto: cliente retido, com tempo para consumir. Posto que instala carregador sem repensar a loja está resolvendo metade do problema e ignorando a única parte que paga a conta.

Bateria de alta tensão exige qualificação, não só ferramenta. Trabalhar em sistema de alta tensão envolve risco elétrico real e treinamento formal de segurança. Isso é barreira de entrada — e barreira de entrada protege quem entra primeiro. Vale conversar com o sindicato e com o Senai da região sobre formação de equipe antes de comprar equipamento.

Um alerta sobre o entusiasmo tecnológico

A reportagem traz ainda um dado do setor de seguros que merece atenção de qualquer gestor: pesquisa da Confederação Nacional das Seguradoras, divulgada em fevereiro, mostra que 80% das seguradoras já usam inteligência artificial, e 68% esperam ter processos totalmente automatizados em até cinco anos.

Leonardo Dalben, engenheiro de software da Progi, empresa de tecnologia que atende seguradoras, oficinas e fornecedores de peças, faz uma ressalva que vale igual para posto: colocar inteligência artificial sobre processo fragmentado não resolve. Segundo ele, a IA depende da qualidade da estrutura por trás — se os dados são incompletos ou cada participante trabalha isolado, automatiza-se apenas uma parte do problema.

É o mesmo diagnóstico que aparece quando um posto compra sistema novo sem arrumar o cadastro, a conferência de turno e a rotina de fechamento. Ferramenta boa sobre processo ruim entrega processo ruim mais rápido.

O que fazer com essa informação

Nada de correr para instalar carregador. A decisão depende de praça, de perfil de cliente e de tarifa de energia, e já vimos o que acontece com quem investe em infraestrutura contando com demanda que ainda não chegou.

O que dá para fazer agora custa pouco. Olhar quantos eletrificados circulam na sua cidade, informação que os dados de emplacamento locais entregam. Conferir se o projeto elétrico do posto suporta carga futura, porque prever ponto de energia na obra é barato e abrir o piso depois não é. E avaliar se a sua operação de serviço automotivo consegue atender híbrido com competência — esse cliente já está na sua pista hoje, mesmo que você não saiba.

A transição energética não vai matar o posto. Vai mudar de onde vem o dinheiro dele. Quem tratar isso como problema de tomada vai perder a parte que interessa.

Fonte: Jovem Pan (15/09/2026), reportagem de Luciene de Oliveira — ver matéria original. Dados da ABVE, da FenSeg, da CNseg e da Seguralta. Texto autoral Brasil Postos com base no conteúdo original.

Perguntas e respostas

Quantos veículos eletrificados o Brasil tem hoje?

A frota circulante contabilizada pela ABVE desde 2012 soma cerca de 950 mil unidades, com expectativa de passar de 1 milhão ainda em setembro. De janeiro a agosto foram vendidos 328.477 leves eletrificados, alta de 160,5% sobre o mesmo período do ano anterior.

Eletrificado é a mesma coisa que carro elétrico?

Não. Eletrificado é a categoria que reúne o 100% elétrico, o híbrido plug-in e o híbrido convencional. Segundo a ABVE, elétricos puros e plug-in concentram mais de 80% das vendas de eletrificados no acumulado do ano. Os híbridos continuam abastecendo no posto, com frequência e volume menores.

Seguradora recusa cobrir carro elétrico ou cobra mais caro?

Segundo a Seguralta, hoje não há diferença de aceitação, de quantidade de seguradoras dispostas a cobrir nem de valor do prêmio em relação aos modelos a combustão, e não há recusa de cobertura. É necessário, porém, contratar cobertura específica para a bateria de alta tensão.

Por que o reparo de eletrificado demora mais?

Pela demora na chegada de componentes e pela falta de oficinas referenciadas, o que prolonga vistoria e liberação do veículo. O guia da FenSeg aponta menor disponibilidade de peças, custo de importação e transporte, necessidade de oficinas especializadas e cuidados com baterias de alta tensão.

O que o posto deve fazer agora diante desse cenário?

Medidas de baixo custo antes de investir em infraestrutura: verificar quantos eletrificados circulam na praça pelos dados de emplacamento, conferir se o projeto elétrico suporta carga futura e avaliar se a operação de serviço automotivo atende híbrido com competência. Prever o ponto de energia na obra é barato; abrir o piso depois, não.

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