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Mais etanol, mas para quem? Bradesco vê oferta crescer e eletrificação acelerar

Usinas de milho devem dobrar a produção até 2035, enquanto a eletrificação pode tirar 12 bilhões de litros do consumo de gasolina e etanol. O desequilíbrio desenha o futuro da bomba

O Brasil vem ampliando rapidamente sua capacidade de produzir etanol, puxado pelos investimentos em usinas de milho. Mas uma pergunta começa a preocupar o próprio setor produtor: quem vai consumir todo esse combustível, num mercado em que a eletrificação dos carros avança mais rápido do que se esperava?

A questão foi levantada por Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco — Pesquisa Econômica, no painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, da 9ª Conferência Nova Cana, segundo reportagem do Money Times. Para ele, a dúvida diante de cada novo projeto de usina é para que aquele etanol vai ser vendido.

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A oferta vai crescer

Na avaliação do Bradesco, o etanol de cana já tem estrutura consolidada, e sua principal incerteza é o clima. O ponto em aberto é o milho. As projeções apresentadas indicam produção de etanol de milho entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros na safra 2026/27, podendo chegar a 23 bilhões a 24 bilhões de litros em 2035/36 — algo como 42% a 43% de toda a produção de etanol do país.

E a expansão está saindo do Centro-Oeste. Há projetos no Matopiba e no Sul, acompanhando a produção de milho, o que pode reduzir o custo logístico de levar etanol a essas regiões. Pelas contas do banco, o excedente de etanol deve crescer nos principais estados produtores até 2035. Só em Mato Grosso, poderia se aproximar de 11 bilhões de litros.

A demanda vai encolher

Do outro lado, Cardoso afirmou que a eletrificação da frota avança mais rápido do que o próprio Bradesco estimava dois anos atrás. A projeção do banco considera que veículos eletrificados — incluindo híbridos e híbridos plug-in — podem chegar a cerca de 50% das vendas a partir de 2030, e superar 30% da frota em dez anos.

Entre os motores desse movimento, ele cita a competitividade das montadoras chinesas, modelos mais acessíveis e a possível queda dos juros, que favorece a renovação da frota. Nas contas apresentadas, a eletrificação representa uma redução potencial de 12 bilhões de litros no consumo de combustíveis do ciclo Otto — gasolina e etanol — no horizonte analisado.

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Vale o contexto: hoje os eletrificados já respondem por 22% das vendas de leves, e a frota está perto de 1 milhão de unidades. Como já mostramos, eletrificado inclui o híbrido, que continua abastecendo — mas com frequência e volume menores.

Onde o setor procura novos clientes

Para não depender só da disputa com a gasolina, o Bradesco aponta duas frentes. Na navegação, uma participação de 10% de etanol poderia representar consumo de 3 bilhões a 4 bilhões de litros até 2035, desde que haja regulamentação e infraestrutura nos portos. No campo, com máquinas movidas a etanol, a substituição integral dos cerca de 6 bilhões de litros de diesel que o agro consome por ano representaria potencial próximo de 11 bilhões de litros de etanol — cenário hipotético, segundo o próprio especialista.

O combustível sustentável de aviação também aparece como oportunidade, mas num horizonte mais longo. E há um custo no caminho: com mais usinas, a disputa pelo milho com a pecuária e o mercado externo tende a encarecer o grão, o que pode reduzir a rentabilidade das usinas no longo prazo.

O que isso significa para o posto

Mais oferta tende a favorecer o hidratado na bomba. O próprio banco vê espaço para o etanol hidratado ganhar participação, especialmente com produção mais perto de novos mercados. Oferta crescente e usinas buscando escoamento costumam se traduzir em preço mais competitivo frente à gasolina — o que favorece a paridade e o giro do produto na pista. Isso tende a ser mais visível no Centro-Oeste, no Matopiba e no Sul, onde as novas usinas reduzem o frete.

Mas o volume total do ciclo Otto deve cair. Se a projeção de 50% de vendas eletrificadas a partir de 2030 se confirmar, a disputa da próxima década será por uma fatia maior de um mercado menor. Ganhar participação do etanol sobre a gasolina pode não compensar a perda de litros por carro.

O agro pode virar cliente de etanol. Se máquinas agrícolas a etanol ganharem escala, postos e TRRs que atendem o campo terão um novo produto a oferecer ao produtor rural — que hoje compra diesel. É horizonte longo, mas é o tipo de mudança que redefine quem é cliente de quem.

A leitura do Bradesco, no fim, reforça uma tendência que já vem aparecendo aqui no blog: a receita do posto do futuro dependerá menos do litro vendido e mais do que ele oferece além da bomba.

Fonte: Money Times (29/09/2026), reportagem de Pasquale Augusto com base em painel da 9ª Conferência Nova Cana. Projeções do Bradesco — Pesquisa Econômica. Texto autoral Brasil Postos com base no conteúdo original.

Perguntas e respostas

Quanto etanol de milho o Brasil deve produzir?

Segundo projeções do Bradesco, entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros na safra 2026/27, podendo chegar a 23 bilhões a 24 bilhões de litros em 2035/36. Nesse horizonte, o milho responderia por cerca de 42% a 43% da produção de etanol do país.

Quanto os carros eletrificados devem representar nas vendas?

A projeção do Bradesco indica que veículos eletrificados, incluindo híbridos e híbridos plug-in, podem alcançar cerca de 50% das vendas a partir de 2030 e superar 30% da frota em um horizonte de dez anos.

Quanto a eletrificação pode reduzir o consumo de combustível?

Pelas contas apresentadas pelo Bradesco, a eletrificação representa uma redução potencial de 12 bilhões de litros no consumo de combustíveis do ciclo Otto, ou seja, gasolina e etanol usados em automóveis.

Mais etanol pode deixar o hidratado mais competitivo?

É a tendência apontada. O Bradesco vê espaço para o etanol hidratado ganhar participação, especialmente com produção mais próxima de novos mercados, como Matopiba e Sul, onde as usinas de milho podem reduzir custos logísticos.

Quais novos usos podem absorver o etanol excedente?

O Bradesco aponta a navegação, com potencial de 3 bilhões a 4 bilhões de litros até 2035, e as máquinas agrícolas, com potencial hipotético de 11 bilhões de litros se substituíssem o diesel do agro. O combustível sustentável de aviação é visto como oportunidade de prazo mais longo.

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