Uma possível desescalada no conflito do Oriente Médio se propagou pelos mercados: o petróleo caiu, e as ações sobem no mundo todo , enquanto o presidente Trump anunciava a suspensão por cinco dias dos ataques planejados à infraestrutura energética iraniana.

Trump afirmou que há conversações em andamento para encerrar a guerra de 24 dias, sinalizando que ambos os lados têm interesse em “fechar um acordo” e que já existem “grandes pontos de concordância”.

O Irã, na mesma hora, negou qualquer contato. Teerã afirmou que Trump recuou de sua ameaça unilateralmente, sem negociação, acordo ou comunicação alguma com o Irã. Na narrativa iraniana, Trump piscou primeiro. Não houve acordo, não houve conversas produtivas. Houve um ultimato — e depois, uma retirada.

O Brent despencou mais de 13%, de US$ 112 na sexta para US$ 96 na manhã desta segunda, antes de recuperar parcialmente para perto de US$ 100 após a negativa iraniana travar o movimento de queda. Dois comunicados. Duas realidades completamente diferentes. E, paradoxalmente, isso pode ser a melhor notícia possível.

A Geometria da Saída Honrosa

A história da diplomacia EUA-Irã está repleta de momentos em que ambos os lados negaram publicamente a extensão de seus engajamentos enquanto, discretamente, continuavam a conversar através de intermediários — Omã, Qatar, Suíça.Não é hipocrisia. É arquitetura. É a única forma que dois adversários com audiências domésticas incompatíveis encontraram para se comunicar sem se destruir politicamente antes de chegar a um acordo.

Domesticamente, o Irã não pode ser visto negociando sob ameaça militar. O Líder Supremo e os Guardas da Revolução construíram toda sua legitimidade no princípio de que o Irã não capitula à pressão americana. Reconhecer publicamente que há conversas em andamento seria politicamente devastador para Teerã. Trump, por sua vez, precisa da narrativa oposta: ele quer — e necessita — parecer que extraiu concessões.

“Acho que vencemos”, disse ele na semana passada. “Do ponto de vista militar, eles acabaram.”

Aqui está o ponto que os mercados capturaram instintivamente esta manhã: essa contradição narrativa não é um obstáculo ao acordo. É a condição para ele.

Isso É Incomum? A História Diz Que Não.

A “vitória dupla” — situação em que ambos os lados de um conflito declaram ter vencido usando parâmetros e audiências diferentes — é, na verdade, o desfecho mais frequente de guerras que terminam sem rendição formal.

Guerra da Coreia, 1953. O armistício encerrou os combates exatamente na mesma linha onde começaram, em torno do paralelo 38. Washington declarou que havia “contido o comunismo.”

Pyongyang e Pequim declararam que haviam expulsado os americanos da fronteira chinesa e forçado o maior exército do mundo a um empate. Ambas as narrativas eram tecnicamente sustentáveis. A guerra, sob ponto de vista estritamente formal, nunca terminou — e precisamente por isso, terminou.

Guerra do Yom Kippur, 1973. Israel foi apanhado de surpresa, sofreu pesadas baixas iniciais, mas acabou cercando o Terceiro Exército egípcio no Sinai. O Egito, no entanto, declarou vitória — e não estava completamente errado. Sadat havia restaurado a honra árabe, provado que Israel era militarmente vulnerável, e aberto caminho para Camp David. Israel “venceu” militarmente.O Egito “venceu” estratégica e politicamente. O cessar-fogo funcionou porque cada lado pôde contar uma história diferente para seu público.

Guerra das Malvinas, 1982. A Argentina foi militarmente derrotada de forma inequívoca. Mas a narrativa do “combate heroico” contra uma potência da OTAN sobreviveu décadas na política doméstica argentina — e o acordo tácito britânico em não humilhar adicionalmente Buenos Aires foi parte do que permitiu normalizar as relações ao longo do tempo.

Primeira Guerra do Golfo, 1991. George H.W. Bush declarou vitória ao expulsar Saddam do Kuwait — e deliberadamente não avançou sobre Bagdá, em parte para preservar exatamente esse equilíbrio: Saddam pôde narrar internamente que havia “sobrevivido” ao ataque de trinta nações. Uma humilhação total teria forçado o regime a escalada terminal ou colapso imediato, ambos com custos regionais imprevisíveis.O padrão é claro: quando não há rendição formal, há espaço para narrativa. E onde há espaço para narrativa, há saída.

O Que os Mercados Ainda Não Precificaram

O rally desta manhã aparenta precificar o melhor cenário: acordo em alguns dias ou poucas semanas, Estreito de Hormuz reabre, petróleo volta para US$ 80-85. O que os mercados subestimam é a complexidade da engenharia narrativa necessária para chegar lá.

Um acordo que o Irã possa vender domesticamente exige, no mínimo:

(1) linguagem que não mencione “rendição nuclear” mas sim “programa civil com verificação”;

(2) algum sinal americano de reconstrução ou alívio de sanções;

(3) tempo suficiente para que o novo líder supremo possa apresentar o desfecho como conquista própria, não herança envenenada.

Nada disso acontece em cinco dias. Mas cinco dias compram tempo para que o roteiro seja escrito.

A Melhor Notícia Que Parece Confusão

Há uma ironia profunda no fato de os mercados terem subido com a afirmação americana de que há negociações, e depois parcialmente recuado com a negativa iraniana. Porque a negativa iraniana, lida corretamente, é parte necessária da negociação — não sua contradição.

O Irã não pode chegar à mesa anunciando que chegou à mesa. Não sob bombardeio. Não com um novo líder consolidando legitimidade. A negação pública é o preço de entrada para a conversa privada.

Guerras raramente terminam com um lado erguendo a bandeira branca. Terminam quando ambos os lados encontram uma narrativa que podem vender para suas respectivas audiências. O momento em que Washington diz “vencemos” e Teerã diz “resistimos e forçamos o recuo americano” — e ambas as afirmações são suficientemente verdadeiras para sobreviver ao escrutínio doméstico — é precisamente o momento em que o Estreito de Hormuz reabre.
Isso não é fraqueza diplomática.

A Arte da Vitória Dupla: Por Que o Melhor Desfecho para o Oriente Médio é Aquele em Que Ninguém Admite Ter PerdidoÉ a única forma que a diplomacia real conhece de funcionar. Os mercados, esta manhã, viram isso com clareza por algumas horas. Vale a pena que permaneçam com essa leitura.

Escrito por Sérgio Rebêlo , CEO , FactorK Consulting .

Linked In : https://www.linkedin.com/in/s%C3%A9rgio-reb%C3%AAlo-7ba6913/

 


A Arte da Vitória Dupla: Por Que o Melhor Desfecho para o Oriente Médio é Aquele em Que Ninguém Admite Ter Perdido

Grupo de Whatsapp SOMENTE PARA REVENDENDEDORES – Será confirmado o CNPJ do posto para os novos membros do grupo. Clique aqui para entrar.

Produtos que você pode gostar