A decisão recente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Ministério de Minas e Energia (MME) de reduzir, de forma extraordinária e temporária, o percentual de mistura obrigatória do  ao óleo  de 12% para 10% – devido a riscos de desabastecimento nacional – traz à tona, novamente, a discussão sobre a importância de diversificar as matrizes energéticas para atender a demanda de veículos pesados, caminhões e frota de transporte público nos centros urbanos.

Inevitavelmente nos deparamos com as planilhas de custos da importação de diesel, um combustível fóssil que, a cada ano, se torna mais oneroso para a balança comercial brasileira. Para suprir a demanda interna, o país importa o combustível, principalmente, dos EUA.

Dados dos últimos doze meses até maio de 2020, como apontados na plataforma ComexStat, do Ministério da Economia, demonstram que o Brasil importou US$ 6,23 bilhões em óleo diesel, ou 11,48 milhões de toneladas.

Os números que refletem a queda da oferta e o aumento do preço do biodiesel reforçam a necessidade da diversificação e da transição energética no setor de transportes.

Neste contexto, o gás natural entra como o protagonista de uma mudança da matriz energética responsável pelo abastecimento de veículos pesados, como caminhões e frotas de transporte coletivo.

Esse caminho traria ganhos ambientais, visto que o energético é uma alternativa de baixíssimo impacto ambiental – mesmo sendo de origem fóssil, suas emissões são extremamente baixas o que favorece também as políticas de mudanças climáticas.

Essa tendência pode ser observada em outras economias mundiais como nos Estados Unidos – Los Angeles conta com 2.500 ônibus abastecidos a gás natural –, na Espanha – a capital Madri utiliza 2 mil ônibus equipados com propulsores a gás (o que equivale a 80% da frota) para transportar mais 425 milhões de passageiros por ano –, e na América do Sul, a Colômbia se destaca pelo sistema de ônibus movidos a gás. Estas são realidades que já se mostram presentes no Brasil, embora ainda em fase de testes.

Em 2019, a Scania lançou uma família de veículos movidos a Gás Natural e disponibilizou uma unidade para a Prefeitura de Curitiba para demonstrações e testes.

O projeto conta com o apoio da , que possui uma rede de distribuição de gás natural instalada capaz de atender mais de 80% das empresas que operam o transporte público na capital paranaense e na região metropolitana, o que coloca a cidade em um conceito alinhado às principais metrópoles do mundo, como Nova York que, desde 2010, possui mais de 500 veículos em sua frota deste tipo.

Um estudo do Departamento de Energia Americano ratifica estas afirmações. O gás natural também é uma das matrizes energéticas com maior potencial de crescimento em países fora da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), como é o caso do Brasil.

De acordo com esse estudo, o setor de transporte é responsável por quase 60% do consumo total de combustíveis líquidos e a tendência é que aumente o uso de combustíveis alternativos. Neste cenário, o gás natural e a energia elétrica são as formas que mais devem crescer – podendo quadruplicar o consumo até 2050.

A viabilização do gás natural como alternativa passa, também, pelo fato que o biodiesel não dará conta da frota brasileira sozinho.

De acordo com dados de consumo da frota de São Paulo (SPTrans), se fosse adotado o Biodiesel 100%, a produção deste combustível de toda a região Sudeste não seria suficiente para abastecer exclusivamente a frota de ônibus da cidade de São Paulo (SP); seria necessária toda a produção da região – e mais 30% desse volume – para atender somente à demanda da capital paulista.

Cenário completamente inverso à abundância do gás natural. Apenas 10% do volume que é reinjetado no Brasil, diariamente, seria suficiente para abastecer 100% da frota de ônibus equivalente a 12 vezes o tamanho do transporte público da Região Metropolitana de Curitiba, conforme dados apresentados pelo consultor em gás e energia, Ricardo Vallejo.

Neste contexto, o gás natural, é uma excelente opção. As cidades precisam de combustíveis mais limpos, com baixa emissão de gases causadores de efeito estufa, ao mesmo tempo em que garantam viabilidade econômica e continuidade no fornecimento e possam ser adotados em grande escala. Enxergo aqui uma imensa oportunidade para incentivar o seu consumo em veículos pesados e no transporte público.

Rafael Lamastra Jr. é diretor-presidente da Compagas e presidente do Conselho de Administração da Abegás.

Fonte : https://epbr.com.br/


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